A estrada de terra que liga Patos a São João do Cariri, no interior da Paraíba, está coberta de poeira vermelha que sobe em nuvens a cada caminhão que passa. Do lado da via, um pasto que deveria alimentar vinte cabeças de gado exibe apenas capim seco e rachaduras no solo. Dona Maria do Socorro, 58 anos, aponta para o horizonte e diz a frase que ouvimos em quase todos os municípios visitados: "A última chuva de verdade foi em março de 2022."
A estiagem que atinge o polígono das secas — região que abrange parte da Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia — entrou no quarto ano consecutivo sem que as chuvas de inverno compensassem o déficit hídrico. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia confirmam: entre 2022 e 2026, a precipitação acumulada ficou abaixo da média histórica em 78% dos municípios monitorados. Para quem vive da agricultura de subsistência e da criação de animais, os números se traduzem em cisternas vazias, rebanhos vendidos à preço baixo e migração forçada para as capitais.
Cisternas e a promessa não cumprida
O Programa Água para Todos, que instalou mais de um milhão de cisternas de placa no semiárido desde 2003, foi celebrado internacionalmente como modelo de política pública. Mas em comunidades rurais da Paraíba, encontramos dezenas de cisternas secas ou com reservatórios rachados pela falta de manutenção. "A cisterna funcionava quando chovia com regularidade", explica Seu Antônio, agricultor em Monteiro. "Agora, com quatro anos de seca, ela virou enfeite."
A reportagem percorreu oito municípios em dez dias, acompanhada do fotógrafo documental Paulo César Lima. Registramos famílias que acordam às quatro da manhã para buscar água em carro-pipa — quando o caminhão aparece — e crianças que nunca viram o açude da comunidade cheio. Em Cabaceiras, conhecida como "Raposa" por abrigar o maior açude de sangria do mundo, o reservatório opera com menos de 15% da capacidade.
O gado que não resiste
A pecuária extensiva — base da economia rural do semiárido — foi a primeira atividade a colapsar. Criadores relatam perdas de até 60% do rebanho em propriedades sem acesso a barragens ou poços artesianos. O preço da carne no mercado local caiu porque muitos produtores preferem vender os animais magros a vê-los morrer de sede. "Vendi dez cabeças por um terço do que valiam em 2021", conta João Pedro, de Queimadas. "Com o dinheiro, paguei dívida e comprei ração para as que ficaram."
As mulheres rurais — historicamente responsáveis pelo manejo da água doméstica — carregam o peso adicional da crise. Em visita a uma associação de agricultoras em Sumé, ouvimos relatos de jornadas de trabalho que se estendem porque lavar roupa, cozinhar e cuidar da horta exigem mais esforço quando cada litro precisa ser transportado de longe.
A seca não é um evento isolado. É um processo que se acumula — e que revela décadas de investimento insuficiente em infraestrutura hídrica e assistência técnica no interior.
Migração e raízes
Nem todos migram. Muitas famílias resistem por vínculos com a terra, com parentes enterrados no cemitério da vila, com a esperança de que o próximo inverno trará chuva. A socióloga Dra. Fernanda Lopes, da UFPB, acompanha comunidades do Cariri há quinze anos e alerta: "A migração masculina para o Sudeste voltou a crescer, mas agora também vemos jovens mulheres indo embora — o que fragmenta ainda mais o tecido social rural."
Em Pernambuco, a situação se repete com variações. No Sertão do Pajeú, municípios como Afogados da Ingazeira e Tabira registram índices de insegurança alimentar superiores à média nacional. Programas de transferência de renda amenizam o impacto, mas não substituem a produção agrícola nem a dignidade de quem prefere trabalhar a terra a depender de benefício.
O que os governos dizem — e o que falta
Secretarias estaduais de Agricultura das duas regiões afirmam que estão ampliando o número de carros-pipa e liberando recursos para perfuração de poços. Em resposta à Cobertura, a Secretaria de Desenvolvimento da Paraíba informou que R$ 42 milhões foram destinados ao combate à estiagem em 2026. Moradores ouvidos em cinco municípios dizem não ter visto efeito prático desses recursos em suas propriedades.
Especialistas em clima consultados para esta reportagem concordam: eventos de seca prolongada tendem a se tornar mais frequentes no Nordeste brasileiro. A adaptação exige investimento em tecnologias de captação, diversificação de culturas resistentes à aridez e — sobretudo — escuta às comunidades que conhecem o território há gerações.
Na última tarde em Patos, Dona Maria do Socorro mostra a horta que mantém com água reutilizada da cozinha. Tomates miúdos, mas vermelhos, pendem de um tutor de bambu. "Enquanto tiver um pé de tomate, a gente não vai embora", diz. A frase resume uma resistência que nenhum índice pluviométrico consegue medir.
Para correções ou relatos de comunidades afetadas pela seca, escreva para [email protected].