O calor de junho em Salvador não impede o trabalho nos barracões. No Liberdade, um galpão de lona e metal abriga meia dúzia de costureiras que costuram paetês em um fantasia que só será vista no desfile de fevereiro. O som de uma tesoura cortando tecido se mistura ao tambor de um ensaio de bateria no galpão vizinho. Faltam oito meses para o carnaval, mas aqui dentro o relógio já corre em outro ritmo — o da festa que sustenta bairros inteiros da capital baiana.
O carnaval de Salvador é o maior do mundo em número de participantes nas ruas — segundo dados da prefeitura, mais de dois milhões de foliões circularam pelo circuito Barra-Ondina em 2025. Mas a imagem que chega à televisão — trios elétricos, cantores famosos, abadás coloridos — esconde uma economia complexa de barracões, mestres de alegoria, passistas voluntários e artesãos que trabalham o ano inteiro para brilhar por quatro dias.
O barracão como oficina de sonhos
Visitamos quatro barracões em junho: dois no Liberdade, um no Campo Grande e um em Paripe. Em todos, a rotina se repete com variações. Manhã de costura, tarde de pintura e montagem de alegorias, noite de ensaio de ritmo. Mestre Zé do Som, 67 anos, coordena a bateria do bloco Haja Coração há trinta anos. "Carnaval não começa em fevereiro", diz, afinando um surdo. "Começa no dia seguinte ao último desfile, quando a gente já pensa no ano que vem."
A costureira Iracema Santos, 45 anos, lidera uma equipe de oito mulheres que trabalham por empreitada — recebem por fantasia concluída, não por hora. "Uma fantasia simples leva três dias. Uma com plumas e bordado leva duas semanas", explica, mostrando o esboço de um abadá que reproduzirá a fachada da Igreja de São Francisco. O tecido importado chegou na semana anterior; o orçamento do bloco mal cobre o custo.
Economia da festa
Uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia estima que o carnaval movimenta mais de R$ 1,5 bilhão na economia local, entre turismo, hospedagem, alimentação e produção cultural. Mas essa riqueza não se distribui uniformemente. Pequenos blocos de bairro competem por patrocínio com agremiações que recebem verbas públicas milionárias. Muitos barracões dependem de vaquinhas online e do trabalho voluntário de moradores.
O bloco Filhos de Gandhy — fundado em 1949 e símbolo da identidade afro-brasileira em Salvador — mantém tradições que vão além do desfile. Os filhos de Gandhy, como são chamados os integrantes, participam de ações sociais durante o ano. "O bloco é escola, é família, é resistência", afirma Mestre Bambam, presidente da diretoria. "Quando a gente sai na avenida, não está só festejando — está afirmando nossa história."
O carnaval baiano não é espetáculo para turista. É ritual de pertencimento para quem nasceu ouvindo tambor na rua.
Os ensaios que antecedem a festa
Em junho, os ensaios de rua ainda não atraem multidões — mas já reúnem dezenas de passistas que repetem coreografias sob orientação de mestres-sala e porta-bandeiras. No Campo Grande, acompanhamos um ensaio do bloco Muzenza, tradicional no circuito Osmar. O calor é sufocante, mas ninguém reclama: cada passo ensaiado agora será executado com precisão quando o trio elétrico passar em frente a 50 mil pessoas.
A fotógrafa que acompanhou esta reportagem, Lívia Rocha, registrou detalhes que escapam ao olhar distraído: mãos calejadas segurando cabos de surdo; pés descalços marcando o chão de terra batida; o reflexo de um paetê em um olho concentrado na costura. São imagens de trabalho, não de glamour — e é assim que a Cobertura prefere documentar a cultura popular.
Desafios para 2027
Organizadores ouvidos para esta matéria listam desafios recorrentes: aumento do custo de materiais, dificuldade de acesso a verbas públicas para blocos de bairro, e a pressão por carnavais cada vez mais espetaculares que afasta pequenas agremiações. A prefeitura de Salvador anunciou em maio um edital de R$ 18 milhões para blocos afro, afoxés e tradições populares — valor que representa aumento de 12% em relação ao ano anterior, mas ainda insuficiente segundo lideranças comunitárias.
Enquanto isso, nos barracões, o trabalho continua. Iracema termina de pregar um último paetê e olha para a pilha de fantasias ainda por concluir. "Em fevereiro, quando o bloco passar e a gente ouvir o povo cantando, esquece o cansaço", diz. "Mas até lá, é junho — e junho também é carnaval."
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